01-03-2018


Escrevo-te para pedir que vás embora, já chega de te ter tanto tempo comigo! Porque é que no meio de tantos outros acontecimentos és tu que passas mais tempo, nesta minha casa. Por vezes fazes-me esquecer que ela é minha. Chegas e acomodas-te, ficas pelo sofá a ver televisão. Dormes no mesmo quarto que eu. Partilhamos da mesma almofada, mas quando chega a minha hora de sonhar, tu não deixas. Não paras de te mexer, nem consegues estar em silêncio, sempre a falar de tudo aquilo que não quero falar, nem lembrar. Mas lembro, lembro e dói.
Como tudo seria mais fácil se não existisses. Poderia ir sem olhar para trás. Sem medo de me vir arrepender, sem medo de perder. Porque custa, custa aceitar a dor, custa termos de continuar a nossa vida como se nada tivesse acontecido. Mas custa ainda mais ter de conviver com ela, ter de andar para a frente sendo puxada para trás. Irónico como uma pessoa em sofrimento está mais ativa que um sedentário, pois por muito que esteja sentada tem toda uma quantidade de sentimentos que a puxa, ora para trás ora para cima ora para o lado. Atrevo-me a dizer que estar em sofrimento é tão cansativo como ir ao ginásio.
Mas como para todo o sedentário existe um ginásio, para todo o sofredor existe areia e água salgada.
Por isso te deixo ir, coloco-te dentro da garrafa e lanço-te ao mar, na esperança que fiques à deriva tanto tempo quanto eu tive por não me deixares.


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